quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma ODE ao niilismo

Crítica de Teatro

A peça “Começa a Terminar” é paradoxal desde o título. E enfadonha partindo do formato adotado: um monólogo. Apesar de se propor a ser uma copilação de textos de Samuel Beckett, não fica claro o que é texto original e o que é divagação do diretor, Antonio Abujamra, que também protagoniza a montagem.
Com um sobretudo preto e óculos esculos, Abujamra, dependendo do foco de luz, chega a ser macabro. Sua voz possante reverberou no Teatro São Pedro questionando a platéia perguntas existencialistas. Os primeiros 20 minutos de peça se centraram em Abujamra, no meio do palco, perguntando: por que o público estava ali? Por que ele deveria estar ali? Por que nós escolhemos dividir o mesmo espaço? E chegava à conclusão que todos deveriam ir embora. Deveríamos ter ouvido o conselho.
O cenário era simples, um pano de fundo com o nome de diversos autores clássicos da literatura mundial e uma cadeira. Abujamra também pediu uma árvore, para que ele pudesse se matar na nossa frente, mas, infelizmente, não foi atendido. A iluminação está de parabéns. Ampliou o palco e deu mais profundidade as reflexões do autor. O som, no entanto, era ensurdecedor e, muitas vezes, atrapalhava o desenrolar do espetáculo.
Para não dizer que o autor estava completamente sozinho, um casal também se encontrava no palco. No entanto, eles representavam a consciência do espectador, e em momentos de surto, se batiam e gritavam: “Ele não disse a frase? Que frase? Está sofrendo repressão! Mentira! Ele disse a frase! Não, desfaleceu. Fale a frase!”. E Abujamra sutilmente respondia: “não vou dizer a frase”. Os escândalos fomentavam o espetáculo, ao ponto da moça do casal, uma mulher de cabelos ruivos e pele alva, arrancar as roupas e ficar com os seios amostra no palco. Para a alegria de alguns. Puro marketing.
O espetáculo tinha a previsão de 60 minutos de duração, mas aos 45, Abujamra joga a toalha. A sensação era de que “Acabara de Terminar”uma apresentação tão longa quanto Fausto. Com mais de cem peças em seu currículo e diversos prêmios conquistados, Abu parecia cansado para o 15º Porto Alegre em Cena. Mesmo assim, honrou a fama de desconstruidor de tabus e conceitos. Antonio Abujamra provocou. Conseguiu chocar o público. No entanto, não sei bem se esse era seu intuito. Ou se havia algum intuito. Ou se o intuito era não ter intuito algum.

Para constar: a tão secreta frase “era eu amo Samuell Beckett”, revelada no fim. Haja paixão.

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