sábado, 23 de agosto de 2008

Quem quer ser professor?


Mesmo com as intermináveis crises no magistério estadual, há quem ainda acredite na vocação de lecionar. Ou quem necessite dela para sobreviver. Veja como estes trabalhadores sobrevivem e lutam em prol de seus direitos e de uma educação de qualidade

As filhas de fazendeiros tiveram seu primeiro emprego nas estâncias lecionando. Inicialmente, uma profissão majoritariamente exercida por mulheres que cursavam o magistério por terem o ‘dom’ e eram sustentadas por seus maridos. Atualmente, o panorama se encontra muito diferente, mas os salários dos professores continuam bucólicos.
O dom foi desgastado pelo pouco incentivo profissional. Os problemas ultrapassam a sala de aula e se infiltram na casa de professores e alunos.
Algumas escolas estaduais estão sofrendo enturmação e multisseriação, o que dificulta a aprendizagem do aluno que divide a sala com outros das mais diversas séries e não consegue ter uma ajuda diferenciada do professor.
As verbas estaduais foram reduzidas em 30%, o que fez laboratórios de informática e ciências fecharem. Também foi criado um projeto de sistema de avaliação externa (SAERS) no qual uma prova é aplicada ao final do semestre e as escolas estaduais que não alcançarem resultados satisfatórios serão fechadas. Os resultados comprovarão que em 2007 os alunos tiveram uma queda brutal na educação e justificará a implementação da municipalização ou a terceirização das escolas.
A situação dos professores também é delicada. Os contratados emergencialmente não tem a garantia de manutenção do emprego. Os gaúchos possuem o quinto salário mais baixo do país no magistério e não há um incentivo a especialização por parte do estado. Sem contar com uma defasagem salarial ocorrida no plano de carreira de 74. Comparado com a época, o professor perdeu 300% poder aquisitivo.
Mesmo assim ainda ouvimos frases como esta de membros do magistério : “Nós trabalhamos com o filho da classe trabalhadora, com o futuro trabalhador. É necessário que esse ser humano tenha as mesmas condição de disputa, mesmas condições de vida, daqueles pertencentes ao topo da pirâmide social’’ diz Marlene Machado, professora estadual. As crises podem ser acentuadas, mas ainda há luta.


A GREVE COMO ARMA


São 7 horas da manhã do dia 7 de Novembro de 2007. Três colunas se deslocam em Porto Alegre.A primeira, parte da Rodoviária; a segunda, do Hospital São Pedro; e a terceira da Fundação de Atendimento Sócio Educativo do Rio Grande do Sul (FASE-RS). Uma bandeira é compartilhada: ‘Pare agora, ou pague para sempre’. Neste mesma hora, no dia anterior, estes mesmos professores do estado estavam em sala de aula. Agora, rumavam à Assembléia Legislativa para protestar contra a votação do ‘pacotaço da Yeda’, constituído de uma série de projetos, entre eles, um que aumenta as alíquotas do ICMS. Outro projeto, o 390, trata sobre a lei de responsabilidade fiscal estadual. Pouco divulgado na mídia, o 390 é um projeto de lei que congela o salário dos servidores, impede a contratação de novos servidores ao menos que haja caso de falecimento ou aposentadoria. “O projeto 390 é o que vai promover todo o desmonte do Estado, faz com que o serviço público já sucateado fique em condições muito mais precárias. Nós temos a preocupação de fazer esta denuncia” diz Simone Goldschimidt, atual presidente dos 42 núcleos do Centro dos Professores do Rio Grande do Sul- Sindicato (CPERS) que se envolveram na mobilização em todo o estado do Rio Grande do Sul.Também no pacote consta o regime da previdência do servidores públicos e estaduais e a transferência de contratação de pessoal e gestão administrativa de setores governamentais para organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPS). Estas instituições estarão gerenciando com o dinheiro público,e de forma como se fosse privada, serviços que deveriam ser de responsabilidade do estado como a saúde e a educação.
A manifestação chegou à porta do presidente do senado que prontamente se manifestou impotente em relação a vetar as medidas. “Democraticamente esses assuntos serão deliberados, só quem pode tirar o projeto de pauta é o próprio executivo. Então se o executivo achar que não é o momento de votar, que deve ser feito as correções propostas por vários segmentos, o governo então vai fazer essa retirada’’. A votação para paralizar a votação da medida ocorrerá no dia 9 deste mesmo mês. Os professores, organizados justamente com outros sindicatos lutam para que o estado assuma as responsabilidades sociais mesmo sofrendo represália da sociedade civil e pagando por isso. No governo Collaris ,por exemplo, os 19 dias de greve foram recuperadas, os alunos tiveram estas aulas repostas mas eles não tiveram este vencimento pago. Lula disse em uma declaração, que o servidor público tendo seu salário e fazendo greve recebendo, seriam férias. Apesar disso, o sindicato CPERS atua a 62 anos e é o maior sindicato do estado. “A única ferramenta que temos para romper o autoritarismo e da falta de negociação com os governos, é um movimento de greve. É a ultima arma que a gente usa, mas é efetivo.” diz Goldschimdt.


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